A Tia Miséria


Este conto chegou-nos às mão enviado pelo senhor António Branco, e diz algumas verdades sobre muita coisa que vemos nas nossas televisões, principalmente em tempos de crise.

No princípio do mundo, havia uma velhinha muito pobre e infeliz, conhecida pela Tia Miséria. Só possuía uma casinha arruinada e uma pereira, defronte da porta, e tudo sofria com paciência e resignação. Só não desculpava nem perdoava que os garotos subissem à pereira e lhe comessem as pêras. Era capaz de dá-las todas sem comer uma sequer, mas indignava-se contra os que lhas roubavam.

Uma noite, bateu-lhe à porta um pobre e ela correu a abrir a porta e a dar-lhe a côdea de pão que reservava para si mesma. No dia seguinte, despediu-se o pobre e disse-lhe que, em agradecimento pela hospitalidade desinteressada e generosa, lhe podia pedir o que quisesse. Ela respondeu:

- Só peço que as pessoas que subirem à minha pereira não possam descer sem o meu consentimento.
– Assim será – respondeu o mendigo.

No outro dia, quando saiu à rua, encontrou três garotos pendurados em cima da pereira, presos por artes mágicas e sem conseguirem descer. Assustados e sem perceber o que se estava a passar, gritaram:

- Ó Tia Miséria, perdoe-nos pelo amor de Deus, e tire-nos daqui, não podemos descer!
– Ah! Pois vocês diziam que não eram os ladrões das minhas pêras! Por esta vez, vá… mas se lá voltarem hão-de ficar aí pendurados por muitos anos!

E os garotos desceram e não voltaram à pereira.

Um dia de manhã, entrou-lhe em casa uma mulher de aspecto belíssimo, mas vestida com um longo manto negro com capuz, e armada de uma foice gasta, de cabo comprido e lâmina larga. Tinha ainda um enorme par de asas de corvo, negras como o breu da noite. E ao vê-la, reconhecendo a Morte, a Tia Miséria perguntou a tremer:

- O que me queres?
– Venho buscar-te.
– Já? Não me dás ao menos mais um ano?
– Não posso.
– Por favor, faz-me só um favor: sobe à minha pereira e traz-me a última pêra que lá está. Quero comê-la, visto que é a última.

E a Morte subiu à pereira e colheu a pêra, mas não pôde descer e ficou lá presa. Sem perceber o que se passava, pôs-se a chamar a velhinha. Esta respondeu:

- Tenha paciência, mas vai ficar aí presa para todos os séculos. A senhora Morte é má e tem feito muitas desgraças e roubado muitos pais aos seus filhos pequenos. Ficará aí para sempre.

E a Morte ficou em cima da pereira. Passado alguns dias, a velhinha tinha em frente da sua porta um exército de pessoas a protestar contra ela, por ter aprisionado a morte! Ele era padres, por não haverem enterros, ele era escrivães por não terem a quem cobrar para fazer testamentos, ele era juízes por não haverem mais processos por partilhas, ele era cangalheiros e agentes funerários por não haver mais negócio… enfim! Todos os que viviam e tiravam dinheiro da morte do seu semelhante estavam ali representados, a protestar contra a Tia Miséria! E todos pediram, a uma só voz, que libertasse a Morte e a deixasse fazer o seu trabalho. Mas ela respondia:

- Não, não e não.

Então, a morte falou do alto da pereira:

- Tia Miséria, Deus encarregou-me de ceifar as vidas dos mortais e de os levar ao pó do qual eles saíram. Faço parte das suas vidas, sou a sua única certeza, a única coisa de que nenhum mortal pode fugir. Mas para ti abrirei uma excepção. Liberta-me e deixa-me cumprir o trabalho que Deus me confiou, e eu garanto-te que, enquanto o Mundo for Mundo, eu não te levarei comigo. Tens a minha palavra.

E a Tia Miséria, ouvindo estas palavras, agradecida e sorridente, deixou a Morte descer da sua pereira e continuar a cumprir com o seu trabalho. E é por isso que, enquanto o Mundo for Mundo, a Miséria existirá sobre a Terra.

(Conto tradicional português, recolhido por Ataíde Oliveira).

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One thought on “A Tia Miséria

  1. Um conto tradicional mas uma verdade real. A morte e a miséria continuam no mundo, vagueando, umas vezes de mãos dadas, outras em parceria e outras cada um por seu lado ceifando e vivendo suas “misérias e mortes”

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